sábado, 30 de dezembro de 2017

Tremido

Quando vier
Tire sapatos e relógio 
Te quero sem tempo
Sem saber onde andou
Teu inteiro
O aqui
Chegou

Teus passos deixe lá fora 
Comecemos juntos 
Ou nem partamos 
Esquece das falas deles
Aqui silêncios e barulhos 
Os calarão

Do inteiro quero porte 
Encaixa forte
Sem tabu
De corpo nu 

Desbravemos arestas cutâneas 
Medidas subterrâneas
Do céu estrelado 
Ao quarto mofado
Quero de lado
Cima 
Baixo 
Frente 
Quatro

Uivo
Grunho 
Grasno 
Urro 
Casto.

Mastro

Fera que berra 
sabe pra onde vai
Te levo comigo 
Junto
No mesmo minuto
Olhar 
Calado
Suado
Molhado
Elo que perfura 
E assegura 

Na minha mão
(segura) 
Contigo 


Gemido

Lagarto no asfalto

Tomada de insônia 
Me vejo montando cacos teus 
Relatos
Partes do que é 
Ou pode ser 
Retratos 

É maremoto no saara 
Assalto a mão armada 
Deleite notório 
Descamada 
Real ilusório 
Estrada?

Se trilha
Solta
Tira 
Roupa 

Sem cheiro
Vem o tato 
Memória dura
Perfurando o que não é 
Nem foi pra ser 

Aguardo 
Espaço 
Já tua
Sem armadura 

Nua


domingo, 10 de dezembro de 2017

Libertem as mães, peço docemente

Com os novos contornos da minha vida fui vendo cada vez mais como o lugar social de uma mãe é cobrado por vocês, cada dia com maior crueldade. Entre seguir uma vida profissional para pagar o aluguel no final do mês, entre seguir uma vida estudantil para alcançar meu desenvolvimento acadêmico, entre seguir uma vida social para ter meus respiros enquanto mulher, amiga, indivíduo... vem as pedras, que não estavam, e que sabia que estariam – ainda que nem sempre sabendo, mas lidando - , no meio do caminho, estavam voando outras rumo a mim, ferindo meu corpo, meus sonhos e necessidades. Mãe solo; cada dia mais sozinha.
Me libertem. Enquanto sigo equilibrando todos os pratos que me foram dados e os que escolhi ainda preciso me munir de argumentos para defender um lugar que é prioritário, ainda que não seja a maior prioridade. É lógico que sei ter em mãos (e não só nas minhas) a construção de um ser, mas é injusto que precise antes abdicar de mim para que aqui caiba, fique, exista. Não o farei. Ela vai crescer e fazer suas escolhas, seguir seus desejos, sonhos, planos e como poderia auxiliá-la sem que antes fizesse o mesmo? Como posso abrir mão de mim por seguidos 18 anos para só então recordar que aqui também habita uma construção contínua e árdua? É prioritário, ela é pequena e depende de mim, mas eu também dependo, seguiremos sim, lado a lado, juntas, mas sem sobreposições.
Todas, libertem-nas. Quando o fruto germina muda tudo, eu sei, mas não me tornei santa. Quando a associação de santidade vem não é dádiva, é crueldade. Ainda sou humana, sou o erro constante junto à tentativa de acerto, essa eterna remissão e contradição, essa transformação perene. Santificar é tirar o direito ao erro, é apontar o tropeço. Não fiz graduação em maternidade, não tem cartilha, é erro atrás de erro sem nunca saber como faz o certo, é intangível, é delicado. É difícil, sempre muito difícil, e a santidade quase impossibilita a tentativa; trava e amedronta.
Libertem as mães. Porque se mulheres já sofrem com os olhares cruéis, opressores e altamente julgadores esse lugar é exponencialmente ampliado quando em seu colo tem um fruto, seu fruto. “Mães não podem...”, “Mães não devem...”; “Você é mãe.”. Sou mãe sim e essa sem dúvida foi a transformação mais estrutural que já vivi, mas antes de ser mãe, sou. E para ser é preciso espaço, é preciso respeito, é preciso compreensão. Me libertem dos seus “E onde está sua filha agora?” quando me encontrarem, ela está sempre dentro de mim, ela está tendo o espaço dela e a vida dela, está com o pai, com a avó, não porque a abandonei ou tercerizei a educação, jamais. Mas porque têm outros laços que a formam, porque sou seu lugar, mas não o único.
Me libertem. Libertem-se de pensar que por ser mãe e sair com alguém procuro um pai ou um encontro casual, sou mais complexa, sou mais que mãe, sou. Começamos porque não procuro, porque encontros acontecem se tiverem que acontecer, se houver disponibilidade, eles partem de outros lugares... são com a minha experiência sim, a partir dela, talvez, mas uma circunstância não deve me compartimentar, pois, repito, é cruel.
Me libertem. Não falem que assumo papel de pai porque trabalho fora, e muito, e meus horários me permitem ter menos contato com a escola, ela tem pai e que pode fazer essa ponte. Mas também não é justo que, por ele cumprir seu papel (não o desmerecendo, muito pelo contrário, a Manu tem um pai maravilhoso, MESMO) se torne “mãe”. Já dizia a física, com controvérsias, mas não vou entrar nesse mérito, que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, assim sendo, ele só poderia ser mãe se antes eu não fosse, mas sou. Estou. Lutando com unhas e dentes, cansada e descabelada, sorrindo com o choro derramando, com ela brincando e olhando a comida, olhando a agenda e colocando roupa na corda, lendo história pra ela dormir e trabalhando, com tanto, estou tanto. Estou.
Me libertem. Eu poderia dizer todos meus ensinamentos, minha maneira de agir, minhas falas, minhas atitudes e talvez criar um arsenal de argumentos em minha defesa, mas não preciso disso, eu ocupo meu espaço e dou sempre o melhor de mim e isso é o suficiente, não negligencio em presença, amor, cuidado, atenção, escuta. Na verdade, escuta é o que vocês não têm. Mas precisam. Sendo como quer que seja, vocês também as têm, as conhecem e dizem respeitá-las... Mães, avós, esposas, companheiras, amigas. Grandes santas apedrejadas.
Libertem. Talvez, “muito talvez”, quando uma mulher diz perante todos que não quer assumir esse papel tão distorcido de santidade materna ela renegue justamente o olhar duro do julgamento sobre “como a mãe deve ser”. “Eu não sei se estou preparada”, não tem como se preparar para tantas pedras vindas de tão distintos lugares, é claro que tem mais variáveis nessa equação e não estou sendo reducionista, mas acho que nada é mais injusto do que o olhar de todos dizendo que está errada. Se a criança é mal educada; “sua mãe não te deu educação?”.
Me libertem. A educação dela não depende só de mim, ela vai pra escola, pra praça, pra casa dos amigos, pra “n” lugares e convive com “n” pessoas e eu não estou observando cada uma de suas atitudes pra falar “faz assim que é melhor”; pior, nem sei se é mesmo melhor; pior, estaria reduzindo sua construção autônoma e interferindo no livre arbítrio. Calma, sei que é “apenas uma criança”, mas sei que ela sabe muito mais que eu muitas vezes, sei que também erro, sei que tem uma essência ali e que DEVE ser respeitada. Não entendam mal, lógico que conversaremos, que refletiremos, que quando algo precisar de interferência ela vai acontecer, mas ela não é um robô que segue meus comandos, logo, sua “má educação” pode ser fruto de muitas outras circunstâncias até mesmo como seu mau humor matinal ou pós sono interrompido. Mas caminharemos juntas, repito, sem sobreposições.
Libertem. Por mais ridículo que pareça, lembrem que antes de uma “mãe” tem mais, muito mais.
Por isso;
Me libertem.
Nos libertem.
Libertem as mães, peço docemente.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

(Ex)barrados


Barreira
De medo
E certeza
(destreza?)
Abusiva
Leviana franqueza
Tua fala não ME cala
Junta
Para que ouçamos
E saibamos
Com quem lidamos
E lutamos
Lutamos
Ainda que feridos
Nos tema
Sistema
União forma
E não revoga
Vigora
Febril
Hostil
Sabemos a origem do sucesso
Retrocesso
Descaso
Tua fala não ME cala
Propaga meu grito
(E não sucumbirá)
Tu, de antemão, demissão
Enfraquece
Empobrece
Os seus
Tão nossos futuros
Obscuros
(Remissão)
Os calados?
Ficarão
Tua fala não ME cala
Espreita corredores
Professores
Corretores
Monitores
E munições
Sãs
Nós
E as torres de Marfim
Sem olhar por mim
Nós
Já não sós
Tua fala não NOS cala
Te abala(?)

Do olhar astigmatizado

Depois de tanto tê-los apoiados em mim resolvi deles me abster.
Saí sem óculos e me entreguei à beleza do astigmata.
Entre rostos tortos e imagens distorcidas, vivi.
Observei com atenção meu caminho cotidiano; irreconhecível. 
Me desvencilhei da visão e, por isso, só por isso, vi.
Vivi.
Depois de fiar meus passos por eles, os abandonei.
Julguei ser a hora de respeitar minha não-visibilidade genética e então olhei.
Quebrei os óculos.
Enudeci meus olhos e finalmente enxerguei.
Vi o invisível, tangi o inatingível.
Com meus cegos olhos
Abri, por fim, meus olhos porosos.

Convidados intrusos

No meio da noite eles tocaram.
Sentei na cama inquieta
Ali já estava desperta
Meu coração despertador me levantou
Agitado soou
Me furtou sono deleite
Deixou olheiras de enfeite
me trouxe até aqui
Frente a ti
Ainda busco o porquê
Acho que queria te ver
Foi noite de conversa longa
Falas sem espaço
Frases sem tempo
Para onde tudo isso aponta?
Devo querer teu abraço
Sentir o seu alento.
Mas se a noite tu me visitou
E aqui estou
Te sonho, sei
Sei sereno
Atento
Vi teu olhar
Tua presença no meu falar
Saudei o encontro
Os olhos amêndoas saltaram
Ao acordar o falado foi ao ar
Ventifcou
vento virou
Eles não.
Cravaram
Enraizaram
Iluminaram
Foram luz no meu quarto solidão
Faróis meio à escuridão
É como se eles tivessem vindo me cobrar
Me perguntar
Audaciosos
Que momento ainda escolhem?
Meticulosos
Eu nego, renego
Mas a ti cá entrego
Ao menos esse devaneio
Essa noite de receio
Minha fragilidade exposta
Minha imagem descomposta
Vão mais versos
E eles cada vez mais imersos
Teus olhos crateradores
Hoje foram meus compositores.

Assalto

Mais uma vez ela chega
sem pedir licença
Me toma de assalto
e me descompensa

Ritmo e rima
entonam sua sina
Velocidade atroz
Me agitando os lençóis
Entorpece
Enlouquece
Mas não de súbito.
Tem tempo...
...Tempo pra sentir que tempo não há
Pra ver que não dá
Tempo de notar;
Você não conseguirá.
Nomeiam-na
Recuso.
De tanto me tirar
(Ar)
...Não vou me direcionar
Me prende
Sinto
Solta
Suplico.
Ofegante.
Tem isso, aquilo
Quando? (Farei)
Ah, faltou também...
Quando? (Terminarei)
Você deve ter esquecido, mas...
Quando? (Conseguirei)
Quando? (Ser/ter-eu-ei)
Ar.

Integral até

Tenho em mãos a ignorância (?)
Ali, delícia seria se assim declarada fosse
Há dúvida (?)
De certo se fosse ela
com outros se identificasse
Vive a dor
sorridente
Trago, pois então, a inocência do amor e toda sua pureza intrínseca.
Serei só mais uma amante de versos pueris e que por assim o ser
Me entrego à limitação que essa compreensão pressupõe
Me permita o desbunde deste...

Então te vi
No primeiro olhar; te vi

Sorri
Sorriso bobo e impreciso

Temi
Temor contente

Tremi
(e toda academia ali se pôs
Frente
Lado
Oposto)

E quis (não!)
E quero. (Eu...)
Talvez somente dor.
Inocência
perene paciência

Ou talvez (samba)

Na delícia da dúvida
Dúbia
Ainda quero.

E quererei. (surdo)
Sei.

Sua...

Nua.

Caminhos retorcidos mostram espaço 
certo
sigo peito aberto
"você é boba, ouça"
"quero toda moça"

Verso amplo

Amplitude...

Buraco que tu abre em mim

E vai
Tu sai
E deixa 
Não entenderei, sua.
Crua.
Ele foi (sai)
Não sei pra onde
Entre corredores de sombras edifico sonhos
(pesad)elos
"você é boba, ouça"

Ouço não
Pele perdeu razão
Meu querer não lhe deu perdão
O ímpeto do verso sabe de onde vem?
Do que não lhe disse
Que não lhe fiz
Nem farei
Sei
(mas tua)
Narrativa
Calada
Somada

Versos perpetuados em outros braços
Ventres

Entre(s)
Tu
Olhares sonhados em outros lados
Parcos
Já não difere de onde partem
Ou mesmo para onde seguem
Rasgam

Do corredor a sombra.
Pior imagem
Ge
Não sei
Mido
Talvez mudo
Sei calado.
E cego.

E quero.
Camila?
Ela está me esperando...

Escada

Sono

Parte

Integral

quarta.

Foi ali,
Era quase
E de quase em quase
Te
Passe.

Ele passou.
E ficou.

Foi antes. Eu sei.
Sabemos.
Espero que saiba.
Se não,
Contei
(?)
Rima
É.

Até

sábado, 30 de setembro de 2017

Enquanto dormia

Enquanto dormia

Foi numa primavera 
Com um sol que brilhava fundo 
E com uma noite que me (des)pondera

Sai

Percorri mil lugares
Conheci uns bares
Vi muito rostos 
E Redescobri os meus

Alarguei meu sorriso
Vivi mundos
Ora um tanto obscuros 
Ora imprecisos
Difusos

Pudera ter sido o copo

Que busca se manter cheio 
E eu
sempre o (es)vazio 

O copo
Contorno discreto da minha vontade
de engolir o mundo
De desbravar a fundo
Mergulhar
Embebedar

Dentro dele; encontro.

Seu universo 
Da fala alta
Da divagação 
Filosofia barata
Minha amplitude 

Entre tonteios 
Ao fim
Sua expansão me reprime
Imobilizada, caio.
Sublime

E raia.

Levanto.

Volta.
Volta.
Volta.

Cabeça roda.


Mas voltei.

Rodei



E com você de novo parei.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Enquadrado

A tu cá eu digo
por respeitar teu carecer
não é a toa que hoje vou,
que corro tanto de você

teu olhar me enudece
nem preciso dizer
sabes sempre o que penso
antes d´eu mesma saber

mas a ti hoje eu só posso
dedicar meu querer
tua mão a outra juntou
isso me faz sofrer

ter de calar
fazer minguar

por isso corro
fujo
escondo
mas de longe ainda acompanho

distancio com olhar atento
com no coração o lamento
de ter que te olhar feito paisagem
enquadrado na estante.

Coração ofegante.

Vez ou outra paro e olho
quase te sinto me abraçar
mas então logo me lembro
não poder concretizar

mas fico aqui
sorriso sustento
deixando o maré seguir
Quem sabe pra onde isso vai fluir

Seja como for quero sempre só seu bem
meu amor não é de posse
se não for meu, amém.
Mas se me quiser
vem.

sábado, 13 de maio de 2017

Sem receio

Era só mais um dia comum
E, como previsto, você era mais um
Entre palavras e olhares
se transformaram os lugares
Eu te quis sem saber por quê
No meu pensamento, de repente, veio você

Precisava te encontrar
Mas não sabia como falar
deveria deixar ao acaso...
Mas e se nunca se tornasse um caso?

Insegura dos dizeres,
mas muito certa dos quereres
Me embebedei de coragem
e criei a paisagem

Lá estávamos nós
escondidos entre lençóis
minha boca era tua
quando vi já estava nua
Teus cheiros me abraçaram
e nossos corpos então dançaram
percebi que não estava em mim
meu corpo sobrevoava o cetim
fechei os olhos e me deixei viajar
quando dei por mim tu não estava lá

Então descobri que lá nunca estivera
era só a soltura da minha fera
os meus devaneios te trouxeram pra perto
e naquele momento tudo se tornou incerto

Preciso alguma coisa fazer
te vi novamente e precisei me conter
em mim você está
e ainda não quero te tirar
paciente
logo saberei o que acontecerá com a gente
talvez nunca passe de um anseio
mas te manterei aqui sem receio

Colo

Menino da dor
me faça um favor
fale agora tudo que sentes
saiba não precisar estar entre valentes
terá meu colo para desfrutar
e farei de tudo para te ajudar

Compartilhe seus horrores
e expurgue seus temores
juntos dividiremos
cada um de seus lamentos

Sei que sentes afundar
mas te ajudarei a navegar.
Ao teu lado muito aprendi
meu afago será a maneira de retribuir

Não pense que busco algo em troca
É que sua dor fundo me toca
te respeito e te admiro
por isso esse cuidado eu imprimo

te quero bem
te empresto o ombro, vem.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Sorriso minguante

Vestida da noite ela se põe a dançar,
na solidão do quarto, mareja os olhos e se entrega ao luar...
Moça do encontro perdido,
Do coração sofrido,
Do sorriso corrompido.

Deseja o "não abalar"
se agita, se anima e grita
sorri e liberta o cantar.

Mas a felicidade ela só imita.

Da gargalhada abafada o choro quer passar.
Vira mar.
Mar aberto, maremoto.
Do sorriso perde o foco

Se perdeu.

O peito cratera vem frente ao olho vermelho
sabe que o abismo já não é mais alheio

Ele vem?
Será quem?

De maquiagem suada
De roupa amassada
Com pele surrada
Acabada

Ela vai

Se entrega à gravidade
já abandonou a vaidade
gole a gole tudo mingua
de coração alado e corpo no chão
se prepara para uma final decisão

Com o testemunho dos astros
Se reconhece aos pedaços
se o riso foi solto
Agora está envolto

De dor
Clamor
Horror
Dor
Dor
Dor

E se for?
Ainda dor?
Um rumo tomou.
Findou.
















(Talvez) não

Rejeição. 
Ou meu ou seu, um não.

Não agora, não assim.
O seu talvez  afundou os meus tomara que sim... 
escoando toda foi, fim.
No silêncio do talvez me perdi de vez. 
De vez em quando de hora em vez, talvez. 

Todos os talvez brotaram 
me afundaram. 

Emergida em  escolhas mal feitas, 
em decisões recém desfeitas, afoguei. 
No estômago veio um frio se alastrar, aflorou lá, 
lá mesmo, naquele ponto até então calado, 
Agora escancarado...
de certo esse todo não te diz respeita, 
mas quando diz de mim e tu ainda aqui está, nos diz.

Rejeição. 
Quer queira, quer não.

Retardar eu posso, 
mas todos os "e se" vem me revogar esforços. 
Tórrida. 
Torta. 
Ao tempo me entregarei sem saber se como poeira me espalhará 
ou como edifício me construirá. 
A construção é certa, mas é a demolição anterior? 
Preserva... me preserve, menino apressado, 
me levou os vinte, deixe viver os previstos trinta. 
Menino levado,
me mostre, não minta
tanto te vivencio e tanto desconheço... tu te renovas em posturas: ora corre desmedido, 
ora nunca parece findo. 
Vai, menino tempo, se exponha, me permita te entender ou ao menos te aceitar, 
vem menino tempo, vez em quando venha me visitar, eu te deixo passar. 
Nesse silêncio de palavras gritadas me escorrem clichês.

Rejeição. 
Minha atual visão.

Não.

Não.

Não.

terça-feira, 18 de abril de 2017

À tatear.

Entre a correira de um dia após o outro ele surge sorrateiro
com um convite irrecusável me tira o sono por inteiro
Menino que se veste de estrela e só aparece ao luar
Traz um chá e um bom papo, não me deixa descansar

Minhas noites são mais belas
reclusa em tuas mãos singelas
Enlaçada pelo ventre
vem, quero que entre...

Entre suspiros e sussurros nos encontramos;
regados de ecstasy e poesia piramos
dançamos... cantamos... gozamos.
Amamos

Amantes do silêncio de nossa conversa
das reflexões conquistadas sem pressa...

A lua baixou, a luz anuncia seu chegar
Findou meu tempo de luar
No adeus ele parte sem olhar,
Vai pronto para não mais voltar
Ar.

Quando tu vais, vestida de lua me permito deitar
Fecho meus olhos e te vejo ainda a me estontear
Recordo teu cheio, vem tua barba a me provocar
tuas mãos a tatear, teu falo a penetrar,
tua boca a me beijar. 
Ar.

No vazio que deixara busco por onde caminhar,
Em que ponto devo tocar?
Ainda consigo provocar?
É que eu queria te encontrar...

ar... ar
ar
ar... ar

tu consegue me tirar

Fujo, nego,
disfarço
mas entrego

a nós, um perene tatear
aos nós contigo quero ficar.

Conectadas

Corpos surdos de cheiros
Calados de gestos
Cegos de dança
Tateam sabores.

Podres

Rebanham-se pelo espaço
Pela fuga da criança
Vem a lã fria, a seda, o laço
Bengalas cedidas
Cheirando a cansaço
Andorinhas mordidas
Limitadas ao passo

Engaioladas.

Vidas-sede, vidas-fome,
Vidas secas.
Come.
Consome.

Caladas
Sedadas
Sedentas
Detentas

Tormentas

Atormentadas
Porém; "conectadas".

terça-feira, 28 de março de 2017

Tintatoder

Entre passagens descompassadas tua imagem me cruzou. Estava longe para ver os detalhes, era lateral e me faltou o olhar, era mistério e eu quis desvendar. Quando o laço apareceu tu veio dizer com teu cantarolado sobre aquela por quem vidrada sou, cantou com rouquidão matinal daquela que nos ilumina e no meu coração ecoou.

Tua rouquidão me timbrou.

A curiosidade se instaurou, a conversa fluiu. Cada novidade me fazia sentir seus sons e neles reconheci o que havia de meu, em tuas coleções ouvi as vozes que comigo sempre falavam, em tuas realizações vi meus desejos, em tuas histórias meus anseios.

Breve foi o encontro, profundo foi o ponto.

Ponto que afundou, que da despretenciodade pretenciou, que do silêncio gritou. Se antes fora breve agora se estendera, amplificara. Não obstante ela me tomou, quiçá dominou, cegou. Da tua calma e doçura brotou minha ansiedade, vontade, curiosidade. Devo ter te assustado; eu me assustei.

Será que é de liquidez que me encho? Sou da trupe do sonho, do ideal, do improvável e impossível. Do coração na boca, da voz rouca. Do tremer, do perder.

Cada "tua voz" me tirou o foco do olhar, me deleitou com a sensação de proximidade, me assusta a intensidade, mas vou.

Cantei com meu silêncio os seus sons, chamei pro meu acalento seus tons, rechamei, falei, falei, falei, elogiei, encantei; me encantei. Incontáveis foram as vezes que ignorei a sabedoria por entrega ao desejo, que disse o calado, que falei um bucado. Torço pra que encantador seja, meu calor te deseja.

E se agora tu escutas é porque foi, fomos. E não interessa se iremos, mas estamos. Se compartilhado está é porque como presumido foi e esta é só uma maneira para que tu compreendas que aqui sempre foi fundo, foi dentro mesmo sem consenso, com contento. Tintatoder, era pra ser.