sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Do olhar astigmatizado

Depois de tanto tê-los apoiados em mim resolvi deles me abster.
Saí sem óculos e me entreguei à beleza do astigmata.
Entre rostos tortos e imagens distorcidas, vivi.
Observei com atenção meu caminho cotidiano; irreconhecível. 
Me desvencilhei da visão e, por isso, só por isso, vi.
Vivi.
Depois de fiar meus passos por eles, os abandonei.
Julguei ser a hora de respeitar minha não-visibilidade genética e então olhei.
Quebrei os óculos.
Enudeci meus olhos e finalmente enxerguei.
Vi o invisível, tangi o inatingível.
Com meus cegos olhos
Abri, por fim, meus olhos porosos.

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