Com os novos contornos da minha vida fui vendo cada vez mais como o lugar social de uma mãe é cobrado por vocês, cada dia com maior crueldade. Entre seguir uma vida profissional para pagar o aluguel no final do mês, entre seguir uma vida estudantil para alcançar meu desenvolvimento acadêmico, entre seguir uma vida social para ter meus respiros enquanto mulher, amiga, indivíduo... vem as pedras, que não estavam, e que sabia que estariam – ainda que nem sempre sabendo, mas lidando - , no meio do caminho, estavam voando outras rumo a mim, ferindo meu corpo, meus sonhos e necessidades. Mãe solo; cada dia mais sozinha.
Me libertem. Enquanto sigo equilibrando todos os pratos que me foram dados e os que escolhi ainda preciso me munir de argumentos para defender um lugar que é prioritário, ainda que não seja a maior prioridade. É lógico que sei ter em mãos (e não só nas minhas) a construção de um ser, mas é injusto que precise antes abdicar de mim para que aqui caiba, fique, exista. Não o farei. Ela vai crescer e fazer suas escolhas, seguir seus desejos, sonhos, planos e como poderia auxiliá-la sem que antes fizesse o mesmo? Como posso abrir mão de mim por seguidos 18 anos para só então recordar que aqui também habita uma construção contínua e árdua? É prioritário, ela é pequena e depende de mim, mas eu também dependo, seguiremos sim, lado a lado, juntas, mas sem sobreposições.
Todas, libertem-nas. Quando o fruto germina muda tudo, eu sei, mas não me tornei santa. Quando a associação de santidade vem não é dádiva, é crueldade. Ainda sou humana, sou o erro constante junto à tentativa de acerto, essa eterna remissão e contradição, essa transformação perene. Santificar é tirar o direito ao erro, é apontar o tropeço. Não fiz graduação em maternidade, não tem cartilha, é erro atrás de erro sem nunca saber como faz o certo, é intangível, é delicado. É difícil, sempre muito difícil, e a santidade quase impossibilita a tentativa; trava e amedronta.
Libertem as mães. Porque se mulheres já sofrem com os olhares cruéis, opressores e altamente julgadores esse lugar é exponencialmente ampliado quando em seu colo tem um fruto, seu fruto. “Mães não podem...”, “Mães não devem...”; “Você é mãe.”. Sou mãe sim e essa sem dúvida foi a transformação mais estrutural que já vivi, mas antes de ser mãe, sou. E para ser é preciso espaço, é preciso respeito, é preciso compreensão. Me libertem dos seus “E onde está sua filha agora?” quando me encontrarem, ela está sempre dentro de mim, ela está tendo o espaço dela e a vida dela, está com o pai, com a avó, não porque a abandonei ou tercerizei a educação, jamais. Mas porque têm outros laços que a formam, porque sou seu lugar, mas não o único.
Me libertem. Libertem-se de pensar que por ser mãe e sair com alguém procuro um pai ou um encontro casual, sou mais complexa, sou mais que mãe, sou. Começamos porque não procuro, porque encontros acontecem se tiverem que acontecer, se houver disponibilidade, eles partem de outros lugares... são com a minha experiência sim, a partir dela, talvez, mas uma circunstância não deve me compartimentar, pois, repito, é cruel.
Me libertem. Não falem que assumo papel de pai porque trabalho fora, e muito, e meus horários me permitem ter menos contato com a escola, ela tem pai e que pode fazer essa ponte. Mas também não é justo que, por ele cumprir seu papel (não o desmerecendo, muito pelo contrário, a Manu tem um pai maravilhoso, MESMO) se torne “mãe”. Já dizia a física, com controvérsias, mas não vou entrar nesse mérito, que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, assim sendo, ele só poderia ser mãe se antes eu não fosse, mas sou. Estou. Lutando com unhas e dentes, cansada e descabelada, sorrindo com o choro derramando, com ela brincando e olhando a comida, olhando a agenda e colocando roupa na corda, lendo história pra ela dormir e trabalhando, com tanto, estou tanto. Estou.
Me libertem. Eu poderia dizer todos meus ensinamentos, minha maneira de agir, minhas falas, minhas atitudes e talvez criar um arsenal de argumentos em minha defesa, mas não preciso disso, eu ocupo meu espaço e dou sempre o melhor de mim e isso é o suficiente, não negligencio em presença, amor, cuidado, atenção, escuta. Na verdade, escuta é o que vocês não têm. Mas precisam. Sendo como quer que seja, vocês também as têm, as conhecem e dizem respeitá-las... Mães, avós, esposas, companheiras, amigas. Grandes santas apedrejadas.
Libertem. Talvez, “muito talvez”, quando uma mulher diz perante todos que não quer assumir esse papel tão distorcido de santidade materna ela renegue justamente o olhar duro do julgamento sobre “como a mãe deve ser”. “Eu não sei se estou preparada”, não tem como se preparar para tantas pedras vindas de tão distintos lugares, é claro que tem mais variáveis nessa equação e não estou sendo reducionista, mas acho que nada é mais injusto do que o olhar de todos dizendo que está errada. Se a criança é mal educada; “sua mãe não te deu educação?”.
Me libertem. A educação dela não depende só de mim, ela vai pra escola, pra praça, pra casa dos amigos, pra “n” lugares e convive com “n” pessoas e eu não estou observando cada uma de suas atitudes pra falar “faz assim que é melhor”; pior, nem sei se é mesmo melhor; pior, estaria reduzindo sua construção autônoma e interferindo no livre arbítrio. Calma, sei que é “apenas uma criança”, mas sei que ela sabe muito mais que eu muitas vezes, sei que também erro, sei que tem uma essência ali e que DEVE ser respeitada. Não entendam mal, lógico que conversaremos, que refletiremos, que quando algo precisar de interferência ela vai acontecer, mas ela não é um robô que segue meus comandos, logo, sua “má educação” pode ser fruto de muitas outras circunstâncias até mesmo como seu mau humor matinal ou pós sono interrompido. Mas caminharemos juntas, repito, sem sobreposições.
Libertem. Por mais ridículo que pareça, lembrem que antes de uma “mãe” tem mais, muito mais.
Por isso;
Me libertem.
Nos libertem.
Libertem as mães, peço docemente.
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